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Pesquisa mostra que professores brasileiros sofrem agressões físicas, simbólicas, institucionais e psicológicas




Por: Valter Mattos da Costa*

Não se trata de impressão subjetiva, exagero corporativo ou retórica sindical. O que se vive hoje nas escolas brasileiras, sobretudo públicas, é um ambiente de cerco simbólico e material ao professor, agora documentado por pesquisa científica rigorosa.

A investigação “A violência contra educadoras/es como ameaça à educação democrática” foi conduzida pelo Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es, vinculado à Universidade Federal Fluminense, com alcance nacional e metodologia transparente, oferecendo dados incontornáveis ao debate público.

O estudo teve sua coleta de dados realizada entre maio e setembro de 2024, após aprovação por Comitê de Ética, e ouviu mais de três mil profissionais da educação em todo o país, abrangendo diferentes regiões, redes, etapas e vínculos institucionais.

Embora inclua também docentes do ensino superior, o relatório apresenta recorte específico e detalhado sobre a educação básica, onde os índices de violência, censura e perseguição se mostram ainda mais elevados e sistemáticos.

O período histórico abordado pela pesquisa é amplo e significativo: os relatos cobrem experiências vividas entre 2010 e 2024, permitindo observar não apenas episódios isolados, mas uma tendência de agravamento ao longo do tempo.

O dado mais chocante – e ao mesmo tempo menos surpreendente para quem vive a escola – é que cerca de 90% dos educadores afirmam ter sofrido ou presenciado situações de censura ou perseguição no exercício profissional – não bastassem os baixos salários.

Quando se observa apenas o recorte da educação básica, mais de 60% dos professores relatam ter sido vítimas diretas dessas práticas, revelando um ambiente de trabalho marcado pelo medo, pela vigilância e pela insegurança permanente.

A pesquisa demonstra que a violência contra o professor não se limita à agressão física. Ela se expressa sobretudo de forma simbólica, institucional e psicológica: questionamentos agressivos, constrangimentos públicos, tentativas de proibição de conteúdos e ameaças veladas.

Um dos achados mais perturbadores do estudo é que os agentes da censura e da perseguição não são apenas externos à escola. Direções, coordenações, colegas, familiares e até estudantes aparecem como vetores desse processo.

Esse dado desmonta a narrativa simplista de que o problema se resume a “casos pontuais” ou a “excessos individuais”. Trata-se, na verdade, de um padrão estrutural de deslegitimação da autoridade pedagógica.

O relatório mostra ainda que o efeito mais recorrente dessas violências é a autocensura docente. Professores deixam de abordar temas, evitam debates, silenciam conteúdos e adaptam práticas não por critério pedagógico, mas por medo.

Esse silêncio forçado não é neutro. Ele corrói a função social da escola, empobrece o currículo, empurra o ensino para uma lógica tecnicista e fragiliza a formação crítica dos estudantes, especialmente nas redes públicas.

A pesquisa da UFF é cuidadosa ao não atribuir o fenômeno a um único fator. No entanto, fica evidente a correlação entre o avanço de discursos autoritários, moralizantes e anticientíficos e o aumento da perseguição ao trabalho docente.

Não se trata apenas de uma crise educacional, mas de uma crise democrática. A violência contra o professor é, em última instância, violência contra o direito social à educação e contra a circulação pública do conhecimento.

O estudo também desmonta a falsa ideia de neutralidade. Ao perseguir determinados conteúdos, discursos e abordagens, impõe-se uma visão de mundo específica, ainda que travestida de “defesa da família” ou “proteção das crianças”.

Ao dar visibilidade empírica a esse cenário, o Observatório da UFF cumpre papel fundamental: transforma aquilo que muitos tentam naturalizar em problema público, político e institucional, passível de enfrentamento coletivo.

Não é possível ler o relatório sem reconhecer nele a rotina concreta de milhares de professores brasileiros, submetidos a salários aviltantes, sobrecarga de trabalho e, agora, a um regime informal de vigilância ideológica.

A pesquisa não exagera, não panfleta e não dramatiza. Ela descreve. E, ao descrever com método, desmonta discursos oficiais que insistem em negar o adoecimento, o medo e a corrosão cotidiana do trabalho docente.

Concordar com esse estudo não é uma posição ideológica, mas um imperativo ético. Ignorá-lo, sim, é uma escolha política – a escolha de manter o professor como bode expiatório de uma crise que ele não criou.

Ao final, a pesquisa aponta para um dilema central: não há educação democrática possível sem liberdade de ensinar, sem proteção institucional ao professor e sem reconhecimento social do seu papel intelectual.

Se o professor é silenciado, a escola adoece. Se a escola adoece, a democracia se fragiliza. O estudo da UFF não apenas revela esse processo; ele exige resposta pública, política e urgente.

Porque um país que persegue seus professores escolhe, conscientemente, o caminho da ignorância organizada.


*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.

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